Joel Gehlen: "O mundo real é restrito, não vai além dos olhos e dos ouvidos, mas o mundo imaginário é infinito" - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônica26/10/2017 | 08h00Atualizada em 26/10/2017 | 08h00

Joel Gehlen: "O mundo real é restrito, não vai além dos olhos e dos ouvidos, mas o mundo imaginário é infinito"

Jornalista aborda percepções sobre o clima e o sentimento de incompreensão da atualidade, que levam a decisões insondáveis

A decisão estava tomada. Então, era melhor evitar os pensamentos. Tateia os olhos abertos pelo escuro e percorre os cômodos da casa, sem precisar sair do quarto. Evita fechá-los, pois há sempre uma explosão de luz dentro da sua falsa neutralidade. Os ouvidos fogem para a noite sem sobressaltos, têm mais nitidez no escuro e pairam abertos sobre um silêncio prestes a se romper. Ainda não sabe direito como será, mas está decidido. Ainda na cama e sem se descobrir, estica o braço e desarma o despertador antes que ele dispare. Lança-se sobre o inefável como quem tem fome do precipício, não tem apego às palavras, mas sabe que são mais palatáveis as coisas que têm nome. O mundo real é restrito, não vai além dos olhos e dos ouvidos, mas o mundo imaginário é infinito e o seu percurso é com palavras. Tudo que tem a fazer é encontrar o termo correspondente que o leve pelo caminho que deseja seguir.

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Três segundos depois, um sabiá jovem testa sua garganta. Esfrega o grafite de sua voz roufenha contra a textura da noite que morre. Duas palidezes se enlaçam nesse instante: a manhã mal desperta e a noite que agoniza. O pássaro tenta em vão o voo do canto, muda de galho, se perfila à brisa, mas não colhe melhor resultado. A calada noturna ainda se impõe pelo discreto assobio dos insetos. Há um eco combalido que não se traduz por tristonho, uma tibieza nos instrumentos da aurora e nas vozes noturnas. Como os violinos de uma orquestra que se demoram em paciente afinação. Por fim, uma cigarra irrompe rascante e faz um talho sobre a face do marasmo. É quase fim de outubro e um frio sangra a primavera sem misericórdia. A chuva é pouco mais que um orvalho que cai. Duas imperfeições se acenam para nunca mais se encontrarem.

Enquanto engole o café puro e sem açúcar que acaba de passar, tem uma recaída derradeira: bem poderia ter deixado para amanhã, agora ainda estaria dormindo. Retira do molho apenas a chave da frente, que devolve por baixo da porta depois de girar no tambor atrás de si. Não apanha o jornal do chão, só leva o chapéu. A xícara fica pela metade sobre a mesa, o café ainda fumegando na penumbra de um amanhecer que não chega a se consubstanciar.

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