Andreia Evaristo: "Nunca somos boas o suficiente, magras o suficiente, malhadas o suficiente. Mas o suficiente a quem?" - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônica01/09/2017 | 21h01Atualizada em 01/09/2017 | 21h02

Andreia Evaristo: "Nunca somos boas o suficiente, magras o suficiente, malhadas o suficiente. Mas o suficiente a quem?"

Escritora fala sobre as exigências que o mundo impõe às mulheres — e que elas nem sempre conseguem alcançar

Andreia Evaristo: "Nunca somos boas o suficiente, magras o suficiente, malhadas o suficiente. Mas o suficiente a quem?" Salmo Duarte/Agencia RBS
Foto: Salmo Duarte / Agencia RBS

Desde que nasceu, você, mulher, carrega um fardo invisível, mas pesado demais: o de não ser suficiente. A vida nos ensina isso, nos empurra e aceitamos, porque não sabemos como rejeitar. Quem de nós nunca se sentiu menor por não estar dentro do padrão determinado? Dedos nos são apontados todos os dias como se fossem armas, nos cobrando mais dieta e menos reclamação. "É preciso sofrer para ficar bonita" — e o carma passa de mãe para filha, numa roda infinita.

Festas são a representação dessa sociedade que nos cobra. Tente, mulher, ir a duas ou três festas seguidas com o mesmo vestido e veja o que acontece. Você sabe do que falo. Se você fosse homem, se mantivesse mais ou menos o mesmo corpo durante toda a vida, eu sei que teria de comprar dois ou três ternos apenas. Na vida toda. Ninguém liga se seu terno de hoje é o mesmo de 15 anos atrás, homem. Mas liga se o vestido segue as tendências da moda em cores, cortes, tecidos e texturas.

Meninas são ensinadas a odiarem seus cabelos. Não venha me dizer que isso é privilégio das cacheadas. Em épocas em que o permanente imperava, as lisas perdiam horas no cabeleireiro com bóbis na cabeça envolvidos em amônia para tentarem se adequar aos encaracoladinhos. A coisa não mudou muito: depois, valia o liso extremo (o termo, aliás, vinha como sobrenome de cremes e xampus — uma estratégia de marketing poderosíssima). Hoje, volta-se aos cachos ou aos ondulados. Isso sem falar nas cores. Dizem que o tom da moda é strawberry blonde — seja lá o que isso signifique, já que não conheço morangos loiros (nem morenos — os que eu conheço são todos carecas). Querem que sejamos fortes. Que sejamos excelentes profissionais, sem deixar de lado o potencial de sermos boas mães. Precisamos de tempo para estudar e poder competir com os meninos, com os homens, mas sem perder a feminilidade, sem esquecer de reservar uma hora do dia para a academia e outra mais para preparar a salada da dieta — a sua e a de quem você ama (afinal, cozinhar é um gesto de amor das mulheres).

O caso é que nunca somos boas o suficiente, magras o suficiente, malhadas o suficiente. Não somos lisas ou cacheadas o suficiente, não temos roupas o suficiente. Não temos força o suficiente ou, se a temos, não somos femininas o suficiente. Mas o suficiente a quem?

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