"Gemer? só de prazer, mulheres!": Elza Soares dá o recado e pede que Brasil acorde em show na Capital  - Cultura e Variedades - A Notícia

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Um dos melhores do ano21/08/2017 | 02h11Atualizada em 21/08/2017 | 11h06

"Gemer? só de prazer, mulheres!": Elza Soares dá o recado e pede que Brasil acorde em show na Capital 

Espetáculo de performance e boa música, show "A Mulher do Fim do Mundo" foi um dos mais marcantes do ano em Florianópolis

"Gemer? só de prazer, mulheres!": Elza Soares dá o recado e pede que Brasil acorde em show na Capital  Betina Humeres / Diário Catarinense/Diário Catarinense
Foto: Betina Humeres / Diário Catarinense / Diário Catarinense

Para acordar um Brasil dorminhoco: música e coragem. Gemer? "Só se for de prazer, mulheres". Elza Soares deu um recado. Ela cutucou feridas, aquelas ainda abertas e purulentas, as feridas sociais da desigualdade e do preconceito. Com muito carinho e malemolência, claro. E com um pouco de samba, de punk, de rap. A voz de Elza nunca esteve tão negra e sua música tão contemporânea e tão engajada como em A Mulher do Fim do Mundo, show que ela apresentou no último domingo no Centro de Cultura e Eventos da UFSC, em Florianópolis. 

Com o devido respeito aos bons shows que passaram pela Capital em 2017, o de Elza foi um dos mais marcantes do ano. As razões são muitas. Em primeiro lugar porque mostrou o triunfo da vitalidade e da coragem de alguém que viu tantas mortes (as simbólicas e as da carne), tanta miséria (a do corpo e a da alma humana) e tanto preconceito e ainda sim teve força para gritar. 

Foto: Betina Humeres / Diário Catarinense

Em segundo lugar, porque mostra que a música contemporânea brasileira pode ser e é muito boa. A cantora vem sendo acompanhada de uma banda formada por músicos talentosíssimos da vanguarda musical paulistana que olham para o agora, não para o passado, e que por isso fazem um som moderno embora com tantas referências. É samba tradicional com gíria, com tambores agressivos, guitarras distorcidas e eletrônicos estridentes. 

Foto: Betina Humeres / Diário Catarinense

E por fim, porque o Fim do Mundo nunca esteve tão perto: abuso, violência, pobreza.

"A carne mais barata é a carne negra", ela cantou. 

Irada, Elza mergulhou no inferno. Coração do Mar, de José Miguel Wisnik/Oswald de Andrade, abre o show, cantado à capela. Ela sentada num trono, gigante como uma rainha boa e reconhecida pelos súditos em cenário alegórico, apocalíptico. Na sequência canta a saga da mulher do fim do mundo.

Em Luz Vermelha, perturba com o tiroteio, o som da na favela. Sentiu desconforto? Não foi só você. Calos sociais, quando apertam, doem em todos.

Em Maria da Vila Matilde, virou a voz de tantas mulheres: "cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim". A canção virou um hino contra o machismo e a violência contra a mulher. 

"A carne mais barata NÃO é mais a carne negra", ela grita, emocionada.

Em Benedita, conta a história de um travesti. A música tem a participação brilhante e performática do cantor Rubi, que continuou no palco para encerrar a canção Malandro com dança.

Depois do Bis, nada mais simbólico do que a canção Volta por cima.

Foto: Betina Humeres / Diário Catarinense

Selfies e selinho depois do show

Depois de uma hora e 20 minutos de show, Elza Soares ainda teve fôlego para receber fãs no camarim e parar para selfies com direito a um selinho. Em breve entrevista, falou do Brasil, dos músicos que a acompanham e do cantar, o combustível para a alma.

E não à toa idade seja um assunto irrelevante para a carioca. Aos 80 anos, ela é simplesmente atemporal — tanto é que a maior parte do público na Capital era de jovens.

— A geração mais nova entende o que eu falo. Eles precisavam de alguém que falasse a mesma linguagem — disse, sobre ter um público tão jovem que a segue.

Sobre o Brasil, disse não saber para onde vai. 

— O papel da música nessas horas é fazer o que eu fiz no palco. Tem que falar, até cansar. Mas tem que falar. O preconceito está aí. Escondidinho. Em qualquer lugar que passar o espanador ele sai, como uma poeira suja. 

Foto: Betina Humeres / Diário Catarinense

E continuou:

— Acho que já nasci marcada para ser uma mulher guerreira e falar desses problemas tão sérios. A mulher tem que brigar. Já era tempo de ter acabado isso tudo. 

Gratidão por ser essa voz, Elza!

Setlist do show
- Coração do Mar
- A Mulher do Fim do Mundo
- O Canal- Luz Vermelha
- A Carne
- Dança
- Firmeza?!
- Maria da Vila Matilde
- Pra Fuder
- Benedita
- Malandro
- Solto
- Comigo

Bis
- Volta por Cima
- Pressentimento

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