Andreia Evaristo: "Há tanta gente querendo entregar-se à foice da morte de braços abertos. Mas você pode ajudar." - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônica26/08/2017 | 08h00Atualizada em 16/09/2017 | 08h00

Andreia Evaristo: "Há tanta gente querendo entregar-se à foice da morte de braços abertos. Mas você pode ajudar."

Escritora e professora fala sobre sobre sentimentos em tons de blues, Setembro Amarelo e como fazer diferença no mundo

O Sol brilha lá fora. O calor aquece os corpos encorujados, a vida escorre pelos dedos, e nudezes se exibem em peles expostas em pontos estrategicamente escolhidos para não escandalizar. Setembro, mais uma vez, é amarelo, embora dentro dela o contrabaixo do blues repita infinitas vezes sua miséria. A toada é triste. A história se repete, os versos retumbam, ecoam, multiplicam memórias. Dói. Não há analgésico para as dores da alma.

Ela se obriga a sorrir. Com maquiagem, oculta os sinais do furacão que acabou de passar dentro de si, mais uma vez, levando ao chão as verdades e as possibilidades, escondendo sonhos sob os escombros. Já foram tantos furacões, tantos tsunamis, tantas catástrofes, que ela nem sabe mais de onde tirar forças para reconstruir o que se despedaçou. A bolsa está cheia de comprimidos, os pulsos marcados por cicatrizes finas e sobrepostas e, se levar a mão ao pescoço, quase pode sentir novamente a corda que lhe tirava (mais que a vida) a aflição.

Faltava-lhe um ombro ouvinte. Não precisava nem ser um ombro resolvedor de problemas e dissolvedor de mágoas — bastava-lhe alguém que lhe desse atenção. "O fardo é menos pesado quando dividido", eles disseram. Mas não se dispuseram a ajudá-la a carregá-lo, não se dispuseram a conhecer suas dores, nem a compreender como se afrouxam seus parafusos — se é que eles algum dia foram ajustados. Quem está imune à dor nesse mundo?

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Olhe para o lado, leitor. Perceba as pessoas. Ela pode estar aí, com você, no mesmo ponto de ônibus, no mesmo banco da igreja. Pode estar na carteira ao lado da sua, em sala de aula, ou no provador de roupas que você espera liberar na loja do shopping. A vida é muito cara para que a gente veja alguém deixando a sua escapar pelo ralo da desesperança, muito preciosa para ser desperdiçada, para ser tirada antes da hora.

Não importa quem você seja, quanto estudo você tenha, de quantas horas do dia dispõe. Olhe para o lado. Há tanta gente pensando na ceifadora, querendo entregar-se à foice da morte de braços abertos. Mas você pode ajudar. Não precisa resolver os problemas, não precisa tomar as dores para si. Muitas vezes, basta oferecer ouvidos para as mazelas alheias.

Setembro é amarelo, mais uma vez. Mas há muita gente tocando blues dentro da alma. Seja o girassol que busca a luz — e leve cor a quem só enxerga tons de cinza. Você pode fazer a diferença.

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