"Passei a ler suas marcas como se fossem as tabuletas de Nínive." - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônica15/06/2017 | 08h00Atualizada em 15/06/2017 | 08h00

"Passei a ler suas marcas como se fossem as tabuletas de Nínive."

Joel Gehlen fala sobre a arte de quem trabalha com pedras

Certamente, vais pisar numa delas no correr do teu dia. Há pelas cidades muitos caminhos recobertos com pedras retangulares. Meu passo está em desacordo com a distância entre elas. Por isso, sempre ando olhando no chão e ponho nelas a mente antes de tocá-las com os pés. Não deixa de ser uma arte de domesticação do espírito. E foi assim que me tornei íntimo dessas pedras aparentemente sem outra serventia que serem pisadas e pisoteadas. Passei a ler suas marcas como se fossem as tabuletas de Nínive. Cheguei ao ponto de passá-las mais com os olhos que com as solas. Há um desaguadouro de afetos quase irreconciliável com sua natureza de pedra. As cicatrizes de nascimento lembram-nos de sua origem ígnea, vindas do âmago da Terra, na forma pastosa do magma que resfria e solidifica ao chegar à superfície.

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A mim, enternecem particularmente as ranhuras provocadas pelo homem. Mais que isso: o ser humano por trás da pedra. São milhões de blocos nas calçadas e meios-fios pelas ruas do vasto mundo. E não há um só deles que não tenha sido formatado pela mão humana. O canteiro, nome que se dá a quem exerce a arte de lavrar e desbastar a pedra para uso em construções, é um ofício antigo e praticamente inalterado, desde a Pedra Lascada. Ainda hoje se usam marretas para bater repetidas vezes sobre ponteiras de metal que vão abrir um pequeno orifício na rocha basáltica. O canteiro abre uma sequência alinhada desses furos e usa uma ferramenta um pouco larga para forçá-los a exercer pressão e abrir a rocha ao meio. E assim, sucessivamente, até chegar ao tamanho e ao formato desejados. Cada corte exige dezenas de marteladas com precisão e contundência.

Pisamo-las com descuido e indiferença, pois, ao rés do chão, só se colocam acima do pó e da lama. Mas detenhamo-nos por um instante a reparar nos sulcos deixados pelas ponteiras de aço, pensemos no labor das mãos que as talharam. Imagina: um trabalhador acordou muito cedo, veio das lonjuras e passou longas jornadas debruçado sobre essa pedra e não desistiu ante a sua tenacidade. Concentrou nela a sua energia, o seu espírito, o seu conhecimento e a sua força criativa. Em sua maioria, foram homens de hábitos rudes, dados ao fumo e à bebida. Mas guardo haver neles um prisma de anônimos Michelângelos abstratos, aprisionados em um cubismo extremista.

 
 

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