"Não, ainda não estava completamente cego, podia vislumbrar fatias de brilho dos sapatos." - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônica02/06/2017 | 08h00Atualizada em 02/06/2017 | 08h00

"Não, ainda não estava completamente cego, podia vislumbrar fatias de brilho dos sapatos."

Jura Arruda fala de Heitor, que ganhou sapatos novos, mas ainda tinha um sonho: ganhar óculos novos, de aros azuis, com os quais poderia escolher seus próprios caminhos

Os sapatos novos de Heitor brilhavam mais do que o brinco verde-esmeralda de Helena. E era a primeira vez que ele usava. Primeiro, ajeitou as meias nos pés com tal capricho e demora que pareciam ser as meias e os pés também novos. Levantou-se, ajeitou a barra da calça de forma que o bico do sapato estivesse suficientemente à mostra. Era para todos verem. Pegou na mesa os óculos, estes, um tanto velhos, de armação ocre, quase sem vida, e já quase sem função para sua miopia.

Desceu as escadas com passos solenes, medindo passo e posição dos pés nos degraus, mas, mais do que isso, extasiava-se com o som da sola tocando o chão, toc, toc, toc. A irmã e os tios aparentavam certa irritação com toda a cerimônia de Heitor ao desfilar sobre seu admirável presente, mas ele não se importava, nada podia atingir-lhe o ouvido ou a alma, afinal, ele calçava os sapatos mais importantes de sua vida. Que era a crisma da irmã? Que importava seus tios trajarem vestes mais vistosas? Ele importava a si. Era ele quem calçava sapatos novos, engraxados, brilhantes, que não só modelavam e escondiam seus pés cascudos, mas de alguma forma embelezava-o por inteiro.

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— Está cada vez mais cego? — gritou a irmã. — Por que andar tão devagar? A gente vai se atrasar!

Não, ele ainda não estava completamente cego, podia vislumbrar fatias de brilho dos sapatos, podia ver os rascunhos da irmã e dos tios no final da escada. Apenas saboreava o momento. É certo que precisava também de óculos novos, um de aro azul! — pensava alto. A irmã voltou a gritar e os tios se impacientaram.

Dali até o carro, os sapatos tiveram que aprender a pisar com ligeireza. Já a postos no banco de trás, sentiu o carro partir e a paisagem ganhar velocidade na direção contrária. Mexia os dedos dos pés dentro dos sapatos para senti-los o tempo todo. Faltavam-lhe agora os óculos, que ele um dia ganharia dos tios, e poderia, então, escolher seus próprios caminhos e pisar firme na direção de sua felicidade, que ele ainda não sabia o que era, nem onde estava, mas certamente o aguardava emoldurada nos aros azuis de seus óculos novos.

 
 

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