Mary Bastian: "Não me adiantou nada ficar deprimida ao completar 70 anos e ouvir o toque-toque da velhice batendo à porta. Então, continuei escrevendo" - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônica15/05/2017 | 08h00Atualizada em 15/05/2017 | 08h00

Mary Bastian: "Não me adiantou nada ficar deprimida ao completar 70 anos e ouvir o toque-toque da velhice batendo à porta. Então, continuei escrevendo"

Escritora fala sobre a jornada ao chegar aos 80 anos de idade

Pois não é que cheguei aos 80 anos? Sem querer, sem pedir, sem gostar da velhice, cá estou eu. Oitentona. E ainda ganhei uma baita festa das amigas, com direito a um monte de fotos, encontros com primas que não via há anos e de uma amiga de outros tempos, lá de Porto Alegre, que fez uma viagem aérea maior que a do corvo da arca de Noé, pois, para chegar até aqui, teve que ir primeiro a São Paulo, fazer baldeação e entrar num teco-teco tocado a vento.

Andei fazendo as contas para ver se encontrava o resultado do porquê eu ter chegado a esta idade se quando era adolescente tinha certeza de que morreria antes dos cinquenta. Pensamentos criados de tanto ler os romances da "Coleção das Moças", em que, na maioria, as heroínas sofriam muito. Todos com finais trágicos, e acho que li a coleção inteira, porque na época não tinha televisão. Novelas, só no rádio, e aí a imaginação corria fácil.

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Então, o resultado das minhas contas foi que na minha família, do lado direito e do esquerdo, os homens morrem cedo, mas a mulherada chega quase aos cem, sem Alzheimer, nem doença nenhuma. Querem ver? Uma avó foi aos 96; a outra, aos 97; minha mãe, aos 83; uma tia, aos 95; e a última tia que resta está com 101 anos, vivinha da silva, lúcida, inteligente e chegadinha numa internet. Batemos bons papos.Não me adiantou nada ficar deprimida ao completar 70 anos e ouvir o toque-toque da velhice batendo à porta. Então, continuei escrevendo e fazendo cerâmica, mas esta, sim, precisei deixar, porque, apesar de nenhuma doença me afligir, as pernas estão me abandonando à triste sina da artrose. Isto me deixa muito indignada, pois sempre fui uma mulher independente, dona do meu nariz, e agora não posso nem ir à padaria da esquina comprar um pãozinho cacetinho, como se diz no Rio Grande.

Mas esta minha festa dos oitenta me deu mais felicidade que a dos meus quinze, quando eu esperava que o guri mais interessante fosse dançar comigo e ele nem apareceu. Fiz de conta que nem notei, mas nunca mais lhe dirigi a palavra.Quero ver o que agora me vem pela frente. Deus me defenda.

 
 

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