"Alien: Covenant" e a (cada vez mais) urgente fuga da Terra - Cultura e Variedades - A Notícia

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Opinião26/05/2017 | 10h55Atualizada em 26/05/2017 | 11h24

"Alien: Covenant" e a (cada vez mais) urgente fuga da Terra

Filme de Ridley Scott é o quarto produto da indústria cultural de massa lançado em 2017 no Brasil que trata da colonização de outros planetas

"Alien: Covenant" e a (cada vez mais) urgente fuga da Terra Divulgação/Divulgação
Foto: Divulgação / Divulgação

Por muitos anos, me impus a permanência na sala de cinema até os créditos finais dos filmes mesmo quando o sentimento de que havia sido engambelado por trailers, críticas ou recomendações de amigos fosse acachapante. Nunca dei importância ao ruído de pipocas sendo trituradas por mandíbulas inquietas ou ao brilho da luz azul de celulares que não foram desligados, mas sempre considerei ficar sentado até o fim da sessão uma maneira de demonstrar respeito à obra e ao cineasta. E assim foi até 2013, quando abandonei "O Homem de Aço" (Man of Steel) bem antes da metade, coberto de vergonha pela ruindade do filme e por ter decidido desacatar meu código de ética de espectador. Na semana passada, quase repeti o gesto: "AlienCovenant"que marca o retorno do diretor Ridley Scott à franquia inaugurada por ele no fim da década de 1970, é constrangedor em muitos momentos e mediano no geral. Foi duro, mas resisti.   

O filme é uma sequência de "Prometheus" (2012), também de Scott, que dividiu os críticos ao narrar a história da origem da criatura que os fãs reconhecem como o pesadelo da atriz Sigourney Weaver no longa de 1979. Nesse prelúdio da trama original, uma equipe de exploradores vai até uma galáxia distante investigar a existência de seres inteligentes que, por alguma razão, teriam criado o ser humano. A pista do paradeiro deles fora descoberta na Terra, em inscrições rupestres de civilizações que nunca fizeram contato umas com as outras – egípcios, maias, sumérios, babilônios e mesopotâmios – mas que, no entanto, deixaram registrado o mesmo mapa misterioso na parede de alguma caverna. Chegando lá, tudo dá errado, claro, e revela-se que os Aliens são armas de destruição em massa desenvolvidas pelos criadores e que, por algum motivo, tinham se voltado contra eles. 

Na produção atual, espaçonave Covenant carrega dois mil colonizadores humanos hibernados e centenas de embriões congelados rumo a Origae-6, que prospecções indicaram se tratar de um planeta habitável. No meio do caminho, porém, a nave é atingida por uma onda de neutrinos que mata alguns viajantes – entre eles o capitão da expedição – e acorda a tripulação. Enquanto reparos são feitos na nave para que a jornada possa ser completada, um sinal de rádio com origem em um planeta obscuro é captado. Um dos tripulantes reconhece a melodia de uma música. Intrigado, o capitão-substituto resolve adiar os planos, mudar a rota e apurar in loco quem está enviando o que ele interpreta como indício de que a demorada busca por um novo lar possa ser abreviada.   

Quando a equipe de reconhecimento desembarca em Origae-6, nada é o que parece. Além de ter referências a "Prometheus", o lugar está ocupado por Aliens e sobreviver a eles será tarefa hercúlea. No fim, o filme não resolve polêmica antiga da franquia: trata-se de uma história de terror, de ficção científica ou um híbrido dos dois gêneros? Em "Coventant", é ainda pior: os Aliens se comportam como uma Mrs. Voorhees (a mãe assassina de "Sexta-feira 13") metamorfoseada em criatura horrenda, surpreendendo um casal que faz sexo durante o banho (está no trailer!) ou aparecendo de repente na curva de um corredor de nave. Clichês desse tipo abundam e cansam. E não há nem aquela cena inesquecívelque se torna clássica assim que assistida, como a sequência da cesariana em "Prometheus".   

Mas se algo se destaca no Alien de 2017 é o fato de que a busca por uma nova casa – seja para a espécie humana, seja para alienígenas – é cada vez mais um assunto a ser considerado. Nada menos que outros três produtos da indústria cultural de massa que tratam do tema foram lançados no primeiro semestre desse ano no Brasil. Trata-se de um longa-metragem também mediano ("Passageiros", que estreou em 5 de janeiro, com Jennifer Lawrence e Chris Pratt), um documentário interessante ("Geração Marte", acessível desde o dia 5 de maio no Netflix) e um bom videogame ("Mass Effect: Andromeda", disponibilizado em 21 de março para PC, PlayStation 4 e Xbox One).   

Na origem de todos esses enredos ficcionais está a real exploração – e provável colonização – de Marte, que o cientista alemão nazista Wernher von Braun, já à frente da corrida espacial pelo lado norte-americano no pós-guerra, previa ocorrer poucos anos depois da visita à Lua. A Nasa quer levar o ser humano ao Planeta Vermelho na década de 2030, e para isso está formando os astronautas que irão fazer a expedição um dia. É sobre a preparação desses ainda jovens exploradores que trata o documentário "Geração Marte", original do Netflix.  

Entre os aspirantes a Neil Armstrong, é consenso que a chegada ao quarto planeta mais próximo do nosso sol possibilitará um salto tecnológico e de entendimento da vida no cosmo como nunca antes na história. O documentário, contudo, traz o alerta de que os planos talvez tenham de ser adiados, pois a situação dos EUA na área não é das melhores. Com o fim da era dos ônibus espaciais em 2011, o país agora precisa comprar assento na Soyuz, dos russos, para chegar à Estação Espacial Internacional. Donald Trump já declarou que acha bem interessante viagens interplanetárias, mas considera muito mais importante refazer a infraestrutura do país que governa em terra firme. Enquanto isso, empresários como Elon Musk lutam para baratear o negócio de colocar astronautas em órbita.   

Ainda que pesquisadores defendam que nunca o mundo foi tão pacífico e seguro para as sociedades humanas, a escalada do terrorismo, do autoritarismo, as crises cíclicas do capitalismo, a instabilidade política crescente, a ascensão de lideranças obtusas como o próprio Trump, mas, principalmente, a incontrolável degradação de todos os ecossistemas conhecidos, fazem com que a decisão de fugir daqui metendo-se numa cápsula de sono forçado para vagar por centenas de anos em meio ao nada, rumo a uma galáxia talvez inalcançável, até que parece sensata. Um dia, talvezserá urgente e inadiávelEntão, não deixa de ser confortador saber que a ficção de massa atual a tenha incorporado com entusiasmo, para prazer estético e fruição artística daqueles que não estaremos aqui para vivenciá-la.

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