Mary Bastian:"É com imenso desprazer que vejo o inverno chegando" - Anexo - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônica12/06/2017 | 10h45Atualizada em 12/06/2017 | 10h59

Mary Bastian:"É com imenso desprazer que vejo o inverno chegando"

Escritora fala da chegada da estação mais fria do ano

É com imenso desprazer que vejo o inverno chegando. Lá no meu Rio Grande, o inverno mata quem não tenha um teto e uma coberta, mesmo sem chuva. Aqui em Joinville é menor, mas, mesmo assim, desagradável. Na primeira visita que fiz aqui para conhecer a cidade que minha filha e o marido tinham escolhido pra viver, vi um barco no jardim da casa ao lado e, curiosa, perguntei se tinha algum rio por perto. Só de malvada, minha filha disse que não, que todos tinham um barco em casa por causa das enchentes e contou a extensão delas e eu nunca mais tive sossego. Chovia aqui, eu telefonava lá de Porto Alegre para saber das novidades. Era uma agonia real.

Já passei por duas enchentes quando morava em Lajeado e o rio Taquari subiu dez metros e inundou nossa casa. Imaginem, então, meu desespero com as histórias que me contaram das enchentes daqui. Mesmo já tendo visto muitas por este mundão de Deus, eu ainda acho que é uma coisa horrível, e agora estou aqui, onde elas aparecem uma vez por ano, parece que de propósito. Ainda bem que nenhuma me pegou, mas fico pensando nos velhos e nas crianças, e meu coração fica pequenininho.

Não gosto do inverno, todo mundo sabe disto, e muito menos de inverno chuvoso. Meu pai nos levou para morar em Caxias do Sul, quando eu tinha dez anos, e a primeira chuva de granizo que vimos, minhas irmãs pensaram que era chuva de sagu e queriam pegar. Lembro da mãe tentando explicar para elas, que eram bem pequenas, que aquilo era chuva gelada. Mesmo assim, encheram canecas com a novidade e ficaram muito tristes quando derreteu tudo. Ouvi ainda minha mãe dizer: ¿Eu não falei?¿

E eu achava uma aventura ir para o colégio sem poder me mexer de tanta roupa e passar o dedo enluvado nos muros onde a geada se acumulava. Até que uma manhã, na escola, vi uma guriazinha desmaiar. Soubemos, depois, que era de frio. A escola estava preparada para estas eventualidades, uma professora deu uma cachacinha com açúcar e a servente trouxe café com leite quentinho da cozinha. Aquilo era corriqueiro no inverno com as crianças menos agasalhadas, desprovidas do necessário, nunca mais esqueci.


 
 
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