Joel Gehlen: Chape, Brasil! - Anexo - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônicas do Anexo 01/12/2016 | 08h02

Joel Gehlen: Chape, Brasil!

"Qual lição fica para nós dessa comoção? Dentre tantas, certamente a de que a vida é menor que um sopro."

O que me dói não é o time de futebol, pois virão outros. E o mito que se cria com o desaparecimento da equipe há de forjar novas gerações de atletas que inscreverão seus nomes pelos gramados do mundo, com ainda maior garra e glória. O que não cessa de latejar neste momento é imaginar como terá sido o convívio com a morte nos instantes finais daqueles 76 passageiros e tripulantes. Foi um tempo de estertor absoluto, quando a vida já não nos pertence, mas ainda não cessou, o coração torna-se uma bomba enlouquecida e o cérebro, uma tempestade no deserto. Aquele intervalo de queda em que o avião mergulha para o choque fatal, quando se tem a desesperante clareza de que não se pode fazer nada e, no entanto, se desejaria fazer todas as coisas; aquele breve e ineludível momento, quando a última esperança desaparece e, no entanto, é a única coisa que resta. Esperar sem esperançar torna infinito um tempo tão exíguo.

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Em sua Teogonia, Hesíodo descreve o nascimento dos deuses da mitologia grega, e representa o Caos – o deus anterior a todas as coisas – como uma queda indistinta e sem fim. O supremo horror. O filósofo Clóvis de Barros compara que o inferno cristão é um lugar muito melhor que o Caos, pois nele é possível estabelecer referências. Já no Caos, não há absolutamente nada a que se apegar. A queda de um avião pode durar apenas alguns segundos, mas a intensidade desse instante encheria séculos de vida corriqueira, pela pressão extrema que exerce sobre todos os sentidos. Um avião que cai reproduz outra vez aquele Caos primitivo que antecedeu a ordem, os deuses e a gênese da própria ideia de mundo.

Qual lição fica para nós dessa comoção? Dentre tantas, certamente a de que a vida é menor que um sopro. Resta-nos a esperança de que encontremos nos destroços, na angústia e no desconsolo um caminho para sermos seres melhores. No entanto, o Brasil de Brasília consegue acordar ainda mais ignóbil do que fora na noite anterior.

A Nação realiza um voo cego, está à beira do Caos e vai sendo pilotada pela vilania desprezível da politicalha. Esse imenso país nunca terá a grandeza de uma pequena Chape porque faltam-lhe um hino, uma camisa verde, um propósito e uma torcida apaixonada.

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