Jura Arruda: Os três vasos de Camélia - Anexo - Cultura e Variedades - A Notícia

Versão mobile

Crônicas do Anexo 11/11/2016 | 07h31

Jura Arruda: Os três vasos de Camélia

"Fazia frio, fazia tempo que Camélia não se sentia tão presente no mundo. Deitou o rosto e viu os três vasos coloridos próximos ao muro."

Camélia tirou da sacola três vasos em cores diferentes. Dispôs sobre uma bancada, do vaso de cor mais clara para o de cor mais escura. Com uma tesoura, abriu o saco de terra e com as mãos... Ah, as mãos na terra! Do barro viemos! A moça brincou de todas as formas com a terra escura e solta antes de colocar os punhados nos vasos. Olhou as mãos sujas e redescobriu a infância. Afastou-se para medir com os olhos o trabalho em andamento. Amarelo, azul e vermelho: estavam os vasos na lida à espera de mãos jardineiras. Camélia aproximou-se e, metendo o indicador no primeiro vaso, fez uma pequena cova para as sementes.

Leia mais notícias de Joinville e região.

Tempo é ventania, passou levando o que não era firme. Camélia acordou no inverno e um frio percorreu-lhe o estômago, sangue não escorria, sequer dor. Foi à farmácia, foi ao banheiro, foi se desesperando. Ser mãe não estava nos planos, nem agora, nem antes do mestrado, das viagens pelo mundo, das noites sem volta, das alvoradas diante do mar. Olhou novamente para o exame, não havia 100% de certeza, podia não ser.

Era.

Camélia precisava de ar, precisava oxigenar o cérebro, concatenar ideias, aceitar a sina. Foi ao quintal, deitou-se no gramado, viu nuvens desenhar fraldas e móbiles brancos sob o azul claríssimo do céu. Fazia frio, fazia tempo que Camélia não se sentia tão presente no mundo. Deitou o rosto e viu os três vasos coloridos próximos ao muro. Caíam mortas e enegrecidas as folhas de salsinha e manjericão, no terceiro vaso, sequer sinal do que fora verde um dia. A moça chorou muito e como jamais havia chorado. Arrastou-se pelo gramado e acariciou os vasos coloridos, mas tão sem vida.
Quando Pedro chegou, encontrou a jovem esposa no quintal, suja de terra e agonia, tocou-a com carinho no rosto, Camélia sussurrou “se não consigo nem cuidar de plantas, como vou cuidar de um filho?” Não era, definitivamente, a forma com que Pedro sonhara receber a notícia.

Tempo é ventania. Anos depois, em uma manhã de sábado, Camélia colocava sementes de manjericão nas mãos dos trigêmeos. Os vasos, na lida, aguardavam o plantio.

A NOTÍCIA

Notícias Relacionadas

Crônicas do Anexo  14/01/2016 | 08h12

Joel Gehlen: O ciclista, Bowie e o infante

Andaria até o sol se pôr, tocando alto a guitarra que tinha dentes nas cordas. Mas como não pôde adivinhar a dor daquele dia perfeito?

 
 

Siga A Notícia no Twitter

Mais sobre

  •  
A Notícia
Busca
clicRBS
Nova busca - outros