Jura Arruda: Covas e berçários - Anexo - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônicas do Anexo 25/11/2016 | 07h32

Jura Arruda: Covas e berçários

"As crianças olham-na com admiração e amor, semente que ela retribui com mais amor ainda, como se dela brotassem sentimentos bons."

À medida que crescemos, ficamos mais distantes do chão. Essa frase, resgatei na última quarta-feira. Ela me ocorreu pela primeira vez em um domingo, quando o Sol repousava no horizonte e eu tinha o ócio como companhia. Caminhava por ruas próximas a minha casa e parei para observar um pássaro que pousara sobre uma pequena moita. Não se demorou quase nada, talvez pelo incômodo da minha presença, e alçou voo novamente. Não o acompanhei; antes, detive-me à moita, à terra que a ladeava, à grama crescida, ao capim-manteiga. Abaixei-me e toquei o solo. Um toque pode levar-nos a lugares distantes, a passados longínquos. Fui imediatamente lançado à minha infância, quando costumava estar próximo à terra, ainda que já tivesse a cabeça nas nuvens. Pés no chão, tocando dorme-dormes, saboreando azedinhas, mordiscando matinho.

Na quarta-feira, estive no Kartódromo para acompanhar o trabalho da encantadora de crianças Silvane Silva, em um projeto que aproxima alunos de quatro escolas públicas da natureza, por meio de contatos de quarto grau (escala original de Hynek, ufólogo que classificou os encontros com extraterrestres), sim, porque somos quase extraterrestres nos dias de hoje, de tão distantes do solo. Menos as crianças assistidas por Silvane, estas estão em comunhão com a terra, plantam sementes, observam o crescimento, extasiam-se com o nascimento de um morango, espantam-se ao ver que o tomate, antes de se avermelhar, é verde.

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Contou-me Silvane que um dia desses resolveu levá-los a um passeio pelo bosque. Como magia, falou do vento e o vento surgiu; recomendou a observação da queda de uma folha de bambuzeiro e a folha caiu rodopiando e exibida. A Silvane tem essas coisas, está tão integrada à natureza que a natureza lhe estima e obedece. As crianças olham-na com admiração e amor, semente que ela retribui com mais amor ainda, como se dela brotassem sentimentos bons, feito flores.

O bem que ela tem feito a essas crianças é imensurável. Vê-la em seu habitat, trocar ideias e ver seus olhos brilharem e marejarem com frequência me fizeram também criança encantada. Silvane vem transformando covas em berçários com a maior magia que existe: o amor irrestrito e interminável.

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