Joel Gehlen: Tudo a dizer, nada a falar - Anexo - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônicas do Anexo 10/11/2016 | 07h31

Joel Gehlen: Tudo a dizer, nada a falar

"Ficam gritantes o desabrigo da situação e a impossibilidade de qualquer atitude, as mãos se precipitam vazias sobre o abismo e o desamparo daquele instante"

Disquei todos os números de longa distância e esperei pela chamada. O som do toque soa distante, como se desse um salto de quatro décadas, quando, gurizinhos, descobríamos o mistério do telefone: duas latas de pessegada vazias, unidas por um barbante longo. Escondidos pela quina da velha tulha, falávamos ao telefone como astronautas na Lua.

A chamada se completa e seu alô do outro lado tem uma voz untuosa. Um tom reticente, cheio de canseira, sono e desalento. Digo meu nome e fico tateando os seus sentimentos. Posso percebê-lo desabar no breve instante de silêncio e na sua pronúncia: “Oi, meu irmão...” Ficam gritantes o desabrigo da situação e a impossibilidade de qualquer atitude, as mãos se precipitam vazias sobre o abismo e o desamparo daquele instante. “Está feito...” Ele balbucia, ante a constatação de que nada resta para fazer. E lembro da frase derradeira de Cristo: “Está consumado”. Sua pronúncia sai entrecortada como se respirasse cacos de vidro. Fico soterrado pelos escombros de tudo que poderia dizer e não digo. Mastigo algumas monossílabas que mal alimentam o telefonema.

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Queria pelo menos dizer-lhe um abraço, falar essas coisas que se esperam nesses momentos, demonstrar afeto e, principalmente, sofrer junto. Mas, desesperadamente, vejo que minha despensa de palavras está vazia. Só a dor chega-me como uma pororoca pela linha, dispensa o verbo e se agiganta no silêncio. Desligamos. Tento fazer mentalmente o caminho da volta, depois de ele ter depositado o corpo do neto Micael na terra fria.

Desde os 12 anos, teve uma vida de superação: jornadas exaustivas de trabalho na oficina, uma década de garimpo nos rios do Norte, dias e noites de braços dados com a morte, numa valsa que soube dançar sem se deixar levar: pelas águas, pelas armas de fio e de fogo, pela dúzia de malárias. Nem foi esmagado pela solidão, companheira inseparável da sorte, e o azar na busca pelo ouro. A essa altura, sua única riqueza era o menino, que agora deixa a vida na mesma idade com que ele entrou na oficina. Abandonado pelas palavras, sofro essa dor impronunciável, que não se reparte ou mitiga. E mais aumenta, conforme rumino na pedra mó do silêncio.

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