Joel Gehlen: A alma dos sabiás - Anexo - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônicas do Anexo 24/11/2016 | 08h01

Joel Gehlen: A alma dos sabiás

"Nos dias de sol, as sombras valsam um silêncio vienense, com a suntuosidade dos salões do antigo império."

O túmulo ao lado do meu dorme à sombra de um pé de nêsperas. Descansa a bruteza de pedra de sua cabeceira sobre o travesseiro das raízes que intentam aos minerais. Há o ciciar de um diálogo entre as folhas que caem no seu silêncio. O macio da grama ao derredor atrai canseiras, e as folhas se deixam atrair pela degenerescência da terra que as traga para o húmus inicial. A quietude é a face generosa da pedra bruta, por isso os cemitérios se alteiam em lápides sem apego. Toda a carga de silêncio que se crava pelas raízes quer amanhecer ao seu redor. Uma rachadura se propaga em diagonal, num risco incerto que imita um corisco no céu das borrascas.

Nessa época, vésperas dezembrais, não há flores, nem frutos, e as sementes estão prestes a despertar o ciclo incerto da germinação. Nos dias de chuva, a árvore e o túmulo fecham os olhos para sentir com mais intensidade as cócegas que tamborilam sobre a campa num tom abaixo das gotas que caem nas folhas. A água escorrega pelo caule rumo à terra prometida e se demora em umedecer o pescoço da lápide eivada de musgos em tons verdes esbranquiçados e quebradiços. Nos dias de sol, as sombras valsam um silêncio vienense, com a suntuosidade dos salões do antigo império.

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E nesse mutualismo de quase abandono, de uma felicidade construída de perenidade e esquecimento, um sabiá acha de pousar todas as tardes a rouquidão do seu canto. Na espessa sombra, entre folhas muito verdes, pronuncia seu peito emplumado num tom de laranja quase obsceno. Como um pequeno Sol que inclina o dia para Oeste, entoa seu gorjeado enrouquecido. Não é um canto a plenos pulmões. Não há tristeza, nem alegria naquilo que diz. Há, sim, uma cisma, como um osso quebrado que se tem medo de usar plenamente. Ele sopra uma pauta entrecortada, armado de um voo já engatilhado nas asas. Mas não arreda pé, nem silencia. Sabe resistir, como se de seu canto dependesse o correto funcionamento da maquinaria da tarde. Diante do intruso, o sabiá não se verga, põe um tom mais robusto e compassado no rouco do seu canto. E o cemitério inteiro se faz plateia, estranha audiência se instala, os nomes com suas datas e as almas, acima, atentam para o assobio que o sabiá aos meus ouvidos entranha.

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