Joel Gehlen: Cinzas de outubro - Anexo - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônicas do Anexo 06/10/2016 | 08h02

Joel Gehlen: Cinzas de outubro

"Em 1º de outubro, os ipês amanhecem esfaqueados e sangram na matança do sábado. Transeuntes dissimulam o passo ante o ensaio de parangolé atômico..."

Outubro emerge pleno de escombros. Um monturo formado por cinzas de esperança, zimbra fina que se desloca em vagalhões inquietos sobre o resplendor que fora setembro. Ainda ontem era a primavera e esplendiam os ipês amarelecidos na quimera de ser um sol eternamente nascente. Outubro se abre com a boca da fornalha onde queimam horas recém-nascidas, esperanças, sonhos e inocências.

A queda das flores de ipê é um poema que se lê em braile. Arranque os olhos com as unhas das próprias mãos, feche as pálpebras sobre o vazio e deslize os dedos ainda úmidos de sangue, soletrando pétala a pétala sobre o rés. Astros desastrados! Imitam a morte, mas não o brilho das estrelas, nem intentam o voo da luz para o profundo amargo-azul dos pósteros. Flerte de fêmeas que se expõem no ardor de gineceus desvestidos e dão-se aos amantes beija-flores.

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Os ipês suicidas glorificam a efemeridade dos telhados onde um gato atravessa a diagonal da noite, abrindo caminho de má vontade entre corolas sem espinhos, para se abrigar da chuva no recôndito da cumeeira. Um cão sem dono flana indiferente suas sarnas sobre o tapete persa de cor de enxofre, leva o nome nos dentes e afia as esferas dos rangidos, mas as flores não lhe matam a fome, nem abrandam o cio. A florescência que se consome em fogo morto afoita os sentidos das sementes.

Em 1º de outubro, os ipês amanhecem esfaqueados e sangram na matança do sábado. Transeuntes dissimulam o passo ante o ensaio de parangolé atômico, desviam dessa deusa feita em asas de borboletas decapitadas. Nada acende uma centelha sobre o cinza. A tarde é uma ciclista que pedala no contrafluxo da borrasca, tem uma clavícula quebrada, latejando no macio das pétalas: de parte a parte, repartem uma dor recíproca.

É noite já. E no quintal, o luar passeia seu olho de espanto sobre um campo de batalha. Desfere a palma de luz fria sobre dois exércitos que se bateram a baionetas, corpo a corpo, até o último soldado. Nada respira, torsos caídos e sobrepostos. A Lua beija como se tivesse lábios, desliza insinuante, luzidia se escora pelos baldios, escorrega furtiva uma padiola vazia.

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