Andreia Evaristo: Amor de mãe é como chá - Anexo - Cultura e Variedades - A Notícia

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Opinião01/10/2016 | 08h01

Andreia Evaristo: Amor de mãe é como chá

"Ela virava a xícara com as duas mãos, encarando os olhos da mulher, numa cumplicidade que só uma mãe e uma filha são capazes de ter."

Andreia Evaristo, escritora
Andreia Evaristo, escritora

profdeinhah@gmail.com

Quando pequena, ela amava os chás que a mãe lhe oferecia, independentemente do sabor. Hortelã, cidreira, macela, não importava: chás aqueciam-lhe o corpo de fora para dentro, e a alma de dentro para fora.

Como amor de mãe, os chás também auxiliavam na cura dos males do corpo. O pai trazia-lhe remédios, às vezes amargos, às vezes difíceis de engolir. A mãe, não. Ela acreditava na cura pelo amor, pela força da natureza, pela água que fumaceava xícara afora. A menina recebia nas mãozinhas pequenas ambos os remédios. Quando vinham do pai, ela fechava os olhos, tentando esconder-se do desconforto que sentia. Quando vinham da mãe, ela virava a xícara com as duas mãos, encarando os olhos da mulher, numa cumplicidade que só uma mãe e uma filha são capazes de ter.

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Conforme a menina crescia, seu gosto pelos chás diminuía. Maldita adolescência, com sua Coca-Cola gelada, com açúcar e sem afeto. Maldito café, forte e vigoroso como um dia de trabalho duro. Malditos sabores que se somaram ao paladar da menina, fazendo-a abandonar a porção líquida de amor da mãe. Só havia uma exceção: quando adoecia, mesmo que os médicos lhe receitassem medicamentos, a garota ainda insistia em desejar um pouco de chá, como se houvesse um poder curativo neles que não pudesse encontrar em outro lugar.

A mãe se foi numa manhã de sol de primavera, quando o ipê amarelou inteirinho no quintal de casa. Um lindo dia para um passeio, mas ninguém queria se despedir daquela que ia embora. Não havia chá que pudesse curar as dores que lhe perfuravam o peito, não havia medicamentos capazes de fazer cicatrizar a ferida que se abriu na alma.

Passaram-se algumas primaveras. Nesta semana, quando os ipês voltaram a rechear-se de amarelas flores, sob sol e céu azul, a garota amanheceu com uma tosse chata, dessas que perseguem crianças depois de uma madrugada gélida. O pai lhe ofereceu um comprimido. Quando ela abriu a mão para aceitá-lo, notou que ele trazia também uma xícara cheia, com a fumacinha subindo aos céus. Tomou-a com as duas mãos e olhou o líquido ambarado, aromático, resgatando memórias. O comprimido ela tomou de olhos abertos, agradecendo ao pai pela preocupação. Já o chá, ela bebeu de olhos fechados: não que quisesse esconder algum desconforto, mas porque de olhos fechados era mais fácil imaginar que os olhos da mãe a encaravam de volta, cálidos como a bebida em suas mãos.

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