Só não lê quem não quer27/05/2013 | 07h31

Voluntários abrem bibliotecas comunitárias em bairros de Joinville

Iniciativas como a de Maria de Fátima Gregório promovem a educação entre os moradores

Enviar para um amigo
Voluntários abrem bibliotecas comunitárias em bairros de Joinville  Salmo Duarte/Agencia RBS
Joinvilenses montam bibliotecas em casa e na associação de moradores com ajuda de doações Foto: Salmo Duarte / Agencia RBS

Criança, quando fica muito quietinha, é porque está aprontando, certo? Não na casa de Maria de Fátima Gregório: quando o neto dela, Mateus, de oito anos, "desaparece", é só procurar na biblioteca da vó. Ali, a teoria certa é: "criança quietinha é criança lendo". A biblioteca de Maria de Fátima tem cerca de quatro mil livros, que não são apenas para ela e o neto: ela é aberta a todos que quiserem viajar entre as palavras dos romances, fazer pesquisas e se divertir.

Ela existe pela mesma paixão que levou Maria de Lourdes e Denizia Severino a criarem espaços dedicados aos livros em Joinville, sem pensar em lucros que não sejam o retorno positivo do investimento na educação de suas comunidades. As três cobrem uma região que, distante do centro da cidade, tem a oportunidade de encontrar a literatura do lado de casa, em bibliotecas comunitárias.

A Associação Instituto Moriá, de Maria de Fátima; o Clube da Leitura, de Maria de Lourdes; e a Associação de Moradores do Jardim Francine, criada por Denizia e Jadisson Severino, foram encontradas pela reportagem por fazerem parte do cadastro da Biblioteca Pública Municipal Rolf Colin.

Eles passaram por lá para buscar parte do seu acervo, em doações que a biblioteca de Joinville promoveu com a comunidade, e suas pequenas sedes ficam a até dez quilômetros de distância do prédio municipal. Não tem nenhum contato entre si nem conhecimento da existência das outras, mas primam pela originalidade em encontrar um jeito de manter o estímulo à leitura entre os moradores.

Para sonhar juntos

Maria de Fátima Gregório se emociona, mas não tem vergonha de contar: dos oito aos 19 anos, viveu na rua, sonhando com carteiras escolares, quadros negros, cadernos e livros - uma sala cheia deles, de preferência. Agora, aos 59, ela acorda e percebe que essa é sua realidade — ou, pelo menos, parte dela. Em uma sala de 4x4,5 metros quadrados, ela mantém estantes abarrotadas de livros, enciclopédias e revistas e, se não virou professora, pelo menos assume um posto parecido dentro da Associação Instituto Moriá, entidade que criou em 2003 para atender às crianças do bairro Comasa.
Funcionando como uma espécie de creche, a associação recebia crianças no contra turno das aulas, ou cuidava delas quando os pais não conseguiam vaga nos Centros de Educação Infantil.

— Eram pessoas que precisavam trabalhar e não tinham com quem deixar seus filhos. Eu não tinha toda a estrutura que precisava, mas não podia dizer 'não' para aquelas mães que batiam na minha porta — lembra Maria de Fátima, que chegou a ter casas alugadas para atender suas crianças, mas há quatro anos não tem mais sede.

Por isso, o que sobrou da obra que criou e cuidou por sete anos para evitar que as crianças do bairro vivessem a infância nas ruas, foram os livros guardados com carinho na sala da frente.

O acervo soma cerca de quatro mil livros, mas outros 14 mil vindos da doação de uma biblioteca particular inteira de São Paulo esperam o dia em que o projeto Beija-Flor — como ela batizou sua OCIP, em referência à história do pássaro que transportava gotas de água no bico para apagar um incêndio — terá uma nova sede.

Por enquanto, a entidade sobrevive com o projeto Carta Amiga, um gesto simples de guardar os selos das cartas que são entregues ao Museu de Valores, que reverte os pequenos papeis em patrimônio para a entidade. 

ONDE FICA: rua Walter Karmann, 403, Comasa.
QUEM PODE PEGAR: qualquer morador, que pode utilizar o espaço da biblioteca para ler ou retirar os livros para levar para casa.
QUANDO É ABERTA: de segunda a sexta-feira, em horário comercial.
COMO AJUDAR: como não há mais espaço, a biblioteca não está mais aceitando livros. As doações podem vir de selos intactos, via projeto Carta Amiga. A entidade também precisa de uma nova sede. O telefone para mais informações é 3455-0044.

Herança de solidariedade

Quando chegou em Joinville, há 12 anos, a jornalista Maria de Lourdes foi morar no Aventureiro e percebeu que aquela era uma periferia diferente daquelas que conhecia no Rio de Janeiro. Apesar da calmaria das ruas, ela sentia falta do contato entre os moradores. Como, apesar da formação universitária, atuou a maior parte da vida nas artes, ela tentou oferecer aula de pintura em casa como forma de conhecer os vizinhos. Mas foi quando decidiu alfabetizar adultos é que descobriu a vocação de seus dias de aposentadoria.

— Me incomodava que as pessoas falassem errado. Comecei a oferecer aulas para alguns vizinhos e acabei alfabetizando 17 adultos — recorda Maria de Lourdes, que aproveitava as cartilhas de alfabetização do filho da vizinha para fazer as aulas e buscava livros e revistas para as aulas.

Era dessa forma que os adultos — a turma era formada principalmente por mulheres de mais de 40 anos — se interessavam mais em entender cada letra e formular palavras e frases.

A sala de aula era a garagem da casa, adaptada para a escola "improvisada", que depois recebeu o aval e a ajuda da prefeitura. Com o tempo, essa coleção se transformou no Clube de Leitura, que hoje é uma biblioteca comunitária aliada à uma brinquedoteca onde ela reúne, em especial, as crianças da comunidade.

Em dias de festa, o espaço mágico de educação de Maria de Lourdes cresce: vai para o quintal e o portão, onde ela monta uma bancada de livros. O jardim vira palco para contação de histórias e a tarde é voltada para jogos educativos.

— Esse espírito de solidariedade começou, eu acredito, com os meus pais. Tínhamos uma biblioteca em casa — o que despertou minha paixão pela leitura - e eles também tinham o costume de fazer doações — avalia ela.

ONDE FICA: rua Renato Cesar de Oliveira, 809, Aventureiro.
QUEM PODE PEGAR: qualquer morador, que pode utilizar o espaço da biblioteca para ler ou retirar os livros para levar para casa.
QUANDO É ABERTA: todos os dias.
COMO AJUDAR: com a doação de livros, prateleiras, estantes e outros móveis para acomodar os livros.

Propriedade da comunidade

Há um ano e meio, uma reunião na Associação de Moradores do Jardim Francine, deliberou a respeito de uma decisão que trouxe a Terra Média, a família Corleone e um grupo de filósofos gregos para dentro de uma das salas da sede. Agora, assim como o salão de festas, a quadra de esportes e a academia da melhor idade, os moradores do loteamento na zona Leste de Joinville contam com uma biblioteca com pelo menos 450 livros.

A ideia foi de Denizia Severino, mulher do presidente da Associação de Moradores, Jadisson, que, apaixonada por leitura, encontrou ali um espaço para incentivar o nascimento de mais leitores.

— Quem utiliza mais são as crianças e os adultos, com mais de 30 anos. É mais difícil fazer os jovens procurarem livros, acho que não faz parte da cultura deles — diz Jadisson.

A biblioteca divide espaço com computadores doados pela Fundamas, que promove oficinas de informática para os moradores - 150 alunos já se formaram. O esforço em manter o lugar aberto e à disposição dos leitores vem dos voluntários, que cuidam da biblioteca para mantê-la aberta durante duas horas, todos os dias.

ONDE FICA: rua Jacupiranga, 1355, Aventureiro.
QUEM PODE PEGAR: qualquer morador, que pode utilizar o espaço da biblioteca para ler ou retirar os livros para levar para casa.
QUANDO É ABERTA: segunda, quarta, quinta e sexta, das 17 às 19 horas; terça-feira, das 14 às 17 horas; e aos fins de semana, quando a associação fica aberta durante todo o dia.
COMO AJUDAR: com a doação de livros, exceto didáticos.

Comentar esta matéria Comentários (0)

Esta matéria ainda não possui comentários

Siga A Notícia no Twitter

clicRBS
Nova busca - outros